A ideia de que tudo será esquecido costuma causar desconforto. Vivemos em uma cultura que valoriza a permanência: queremos deixar marcas, sermos lembrados, registrados, reconhecidos. Buscamos relevância, legado, visibilidade. Diante disso, a frase atribuída a Marco Aurélio — “Em pouco tempo, tudo será esquecido — você e aqueles que se lembram de você” — soa quase como uma provocação. No entanto, longe de ser pessimista, esse pensamento estoico carrega uma poderosa lição de liberdade.
Marco Aurélio, imperador romano e filósofo, escreveu suas reflexões pessoais no que hoje conhecemos como Meditações. Ali, ele não buscava fama nem leitores; escrevia para disciplinar a própria mente diante das responsabilidades do poder, das guerras, das perdas e da fragilidade da vida. Ao refletir sobre o esquecimento inevitável, Marco Aurélio não pretendia diminuir o valor da existência humana, mas colocá-la em perspectiva.
Tudo o que hoje parece imenso — conquistas, conflitos, honrarias, humilhações — será reduzido ao silêncio do tempo. Pessoas que dominaram impérios, que foram idolatradas ou temidas, hoje são apenas nomes em livros, quando ainda são lembradas. A maioria, simplesmente desapareceu da memória coletiva. E mesmo aqueles que lembram, também serão esquecidos. Essa cadeia infinita de esquecimento revela uma verdade difícil de aceitar: a permanência é uma ilusão.
Mas essa constatação não precisa gerar angústia. Pelo contrário, ela pode aliviar um peso invisível que carregamos todos os dias. Quando compreendemos que tudo passa, inclusive nossa reputação, nossos erros e nossos acertos, deixamos de viver como se estivéssemos constantemente sob julgamento eterno. A obsessão pela aprovação alheia perde força. O medo de falhar diminui. A necessidade de provar algo ao mundo se dissolve.
Para o estoicismo, a verdadeira medida de uma vida não está em ser lembrado, mas em viver de acordo com a virtude enquanto se está vivo. Marco Aurélio não defendia o esquecimento como desprezo pela existência, mas como um lembrete de humildade. Se tudo será esquecido, então o que importa não é a memória que deixamos nos outros, mas o caráter que construímos em nós mesmos.
Essa reflexão também nos ajuda a lidar com a dor e a perda. Sofremos intensamente quando algo termina — uma fase, um relacionamento, uma posição social — como se aquilo fosse definitivo. O pensamento estoico nos lembra que tudo está em constante transformação. O que hoje parece insuportável, amanhã será apenas uma lembrança distante. E, com o tempo, nem isso.
Ao mesmo tempo, a consciência do esquecimento nos convida a valorizar o presente. Se nada é eterno, cada instante ganha importância. Cada escolha se torna uma oportunidade única de agir com justiça, coragem e sabedoria. Não para ser lembrado, mas porque é o certo a fazer agora.
Há também um aspecto libertador nessa ideia: se tudo será esquecido, somos livres para viver com autenticidade. Não precisamos moldar nossas ações apenas para impressionar, acumular títulos ou buscar validação constante. Podemos errar, aprender, recomeçar. O tempo apagará tanto os aplausos quanto as críticas.
Marco Aurélio nos ensina que a vida não precisa de testemunhas para ter valor. Ela basta em si mesma. O esquecimento não anula o sentido da existência; ele a purifica de vaidades desnecessárias. O que fazemos hoje importa não porque será lembrado, mas porque nos transforma enquanto fazemos.
No fim, aceitar que tudo será esquecido não é um convite ao niilismo, mas à lucidez. É compreender que a vida é breve demais para ser desperdiçada com orgulho, medo ou ansiedade excessiva. É escolher viver bem, não para o futuro distante, mas para o agora.
E talvez seja essa a maior lição de Marco Aurélio: quando deixamos de lutar contra o esquecimento, aprendemos a viver com mais leveza, presença e verdade.
